Não consegui ter uma impressão muito clara de Tampere logo que cheguei. Estava cansada, com muita coisa na cabeça, e, sinceramente, ainda preocupada com o tanto de viagem de avião que eu tinha pela frente.
Não consegui formar uma imagem na minha cabeça do que é a cidade. Não sabia onde era o norte, não sabia com o que ela parecia. Não tinha cor, não tinha nada especialmente marcante. Não registrei rostos de pessoas, e não entendia absolutamente nada da língua. A sensação foi bem parecida com estar vendo um filme pouco interessante em uma língua completamente estranha. Eu não entendia nada, e nem fazia muita questão de entender.
O fato de que a Jana já estava um pouquinho mais confortável na nova cidade, e bem inteirada do que tinha que ser feito e em qual ordem ajudou muito para que eu me sentisse desse jeito. Ela praticamente resolveu tudo pra mim! Nem achei ruim. Acho que na verdade eu queria adiar o momento de cair na real para dali a três semanas, quando eu chegaria de fato em Tampere, depois de ter visto a família no Brasil, arrumado um monte de pendências, respirado fundo e mastigado tudo. Por enquanto, estar ali era simplesmente isso, estar em algum lugar, sem de fato viver nada.
Por conta dessa semi-anestesia, não tenho fotos da cidade, nem nenhum comentário especialmente interessante sobre nada. Em poucas palavras, resolvemos o que tinha que ser resolvido na universidade, fizemos a conta no banco, fizemos o cartão do ônibus, fizemos a carteirinha de estudante. Todas essas coisas levam semanas para ficarem prontas, então foi uma ótima idéia vir antes e deixar tudo processando, para que estivessem todas em cima quando voltássemos.
Mas, ao mesmo tempo que eu estava sem muita presença de espírito para as coisas da cidade, por algum motivo, eu me afetei muito pelo apartamento. O que eu mais queria era pegar a chave, comprar produtos de limpeza para a super faxina e guardar minhas coisas onde elas deviam ser guardadas. Acho que os nove meses de Genebra, morando em um quarto na casa de outra pessoa, me deixaram com uma vontade imensa de ter um canto do qual eu fosse dona. Dona mesmo, sabe? Limpar a casa me daria a sensação de conhecer tudo que há para conhecer do meu espaço, para poder me apropriar dele de verdade.
A chegada no apartamento foi um pouco chocante no começo. O Mikontalo é um prédio com uma reputação um tanto quanto curiosa (tem até uma entrada na Wikipedia destinado a ele, vale a pena dar uma olhada). É o maior alojamento estudantil da Escandinávia toda. Foi construído nos anos 70, se não me engano. E, pelo jeito que o apartamento estava sujo, parecia que não tinha sido limpo desde então =P
OK, exagero. Mas, para os nossos padrões, havia poeira demais. Abrimos tudo, tiramos cortinas e colocamos para lavar, e sacodimos o tapete gigante da cozinha na janela (acho que é até proibido, mas eu não estava muito preocupada, tamanha era a vontade de acabar com aquele cheiro de apartamento velho e fechado por meses).
A pior parte da limpeza foi, sem dúvida, a Coisa do congelador. Os moradores anteriores esqueceram alguma comida não identificada congelada lá dentro, e desligaram o aparelho antes de sair. Durante todo o verão, a Coisa sofreu uma mutação qualquer ali dentro. Nunca imaginei que comida congelada pudesse apodrecer tanto a ponto de virar água. Ou seja lá o que aquele líquido era. Tadinha da Jana, ficou um tempão se virando para tirar os restos mortais da Coisa dali de dentro. Até papel de lista telefônica ela usou para absorver aquela água nojenta.
Enquanto a Jana lutava contra a mutação tóxica, eu caçava focos de poeira nos cantos. Varri, passei pano, passei escova de dente em torneira e Veja nas cracas de gordura e poeira que se acumulavam em tudo quanto era lugar. Eu comecei a limpeza lá para as sete e pouco da noite. Quando eu achei que a casa parecia habitável, o sol já havia se posto, embora ainda desse para ver uma claridade no horizonte (aliás, nosso apartamento é no décimo andar, e o por do sol que a gente vê daqui é daqueles de filme). Olhei no relógio, achando que seriam por volta de umas dez e meia. Me enganei bonito: eram uma da manhã em ponto. E olha que nem era mais o alto do verão.
Sem o cheiro de poeira, o apartamento se transformou, ao menos aos meus olhos. Ah, sim, quase me esqueci de descrever o apartamento. Tem um hall de entrada, com três portas de armário, um corredor, e a cozinha, que é também uma área de convivência. Daí, um banheiro enorme no corredor, e os três quartos. O meu e da Jana é o primeiro, de quando você chega no apê. Sim, estamos dividindo um quarto de uns 15 metros quadrados, cortesia do TOAS (escritório de acomodação estudantil de Tampere). Pelo menos o aluguel que estamos pagando é ridiculamente barato: 95€ por mês para cada, incluindo eletricidade, água, internet e sauna. Mas voltando ao assunto, o apartamento ficou com muito mais jeitinho de casa. O quarto limpinho ficou ainda mais bonitinho quando começamos a arrumaros livros na estante, e colocamos nossas colchas coloridas, escolhidas a dedo para combinarem (para desespero do Tony, que insistiu em nos acompanhar nas compras).
Finalizada a arrumação no dia seguinte, juntamos a mala de viagens e fomos para Helsinki, onde um outro finlandês gente finíssima nos aguardava. Ele passearia com a gente pela cidade um pouquinho, nos levaria para beber alguma coisinha em algum bar legal, e nos levaria ao aeroporto na manhã seguinte, de onde sairíamos, às 6 da manhã (!) para Barcelona.
