No dia 30 de outubro fez exatamente um ano que eu me mudei para a Europa. Parece que foi há umas três vidas. Pensando bem, fazendo um balanço rápido de tudo o que aconteceu desde então, o número mais correto é cinco.
A primeira fase, o outono chuvoso, o primeiro contato com o vento gelado que corta a pele e dói no osso, a primeira caminhada para o trabalho pensando "onde fui amarrar minha mula". E minha parte preferida na época (!), a escuridão que cai sobre nossas cabeças às cinco da tarde. Os dias eram solitários, e eu não via a hora de chegar em casa para ver se a internet do vizinho estava disponível para poder gastar horas e horas no messenger com as pessoas do lado de lá do oceano. Invariavelmente dormia tarde e ficava sonolenta no dia seguinte, apenas esperando a escuridão voltar. A sensação de solidão ainda volta quando escuto as músicas daquela época, especialmente uma tal de "La Ritournelle", de Sébastien Tellier, e outras músicas em francês que eu escutava incansavelmente para tentar aprender a falar a língua mais rápido. Hoje já nem sei qual é a sensação de olhar para um texto em francês e não ter idéia de sobre o que ele é.
A ida a Amsterdam marcou o início de um renascimento. Além de conhecer um lugar lindo e me apaixonar (pelo lugar, mas não só por ele), foi quando tomei consciência de que minha vida nunca mais ia ser a mesma. De verdade.
Desde a primeira semana do ano, comecei a andar com os outros estagiários da OIT. Um grupo de no mínimo dez americanos chegaram de uma vez, além de diversos outros estagiários de todas as partes do mundo que também começaram a pipocar em todos os departamentos. Almoçávamos quase todo dia, e depois de um tempo eu não conseguia ficar em casa sozinha nem se eu quisesse.
Foi nessa época que eu acordei pela primeira vez com o silêncio absurdamente calmo de uma manhã coberta de neve.
Foi nessa época também que eu comecei a me preparar para o verdadeiro motivo de ter me despencado para tão longe. Comecei a preencher fichas de inscrição para o mestrado, arrumar cartas de recomendação e traduções, pesquisar bolsas, deadlines, escrever cartas de intenção.
A primavera em Genebra chegou cedo. Não vou me esquecer nunca do cheiro adocicado e delicioso que as flores brancas soltavam, e do quanto 12 graus celsius me faziam querer sair correndo até o lago, simplemente porque agora um só casaco era suficiente.
Em abril começou a minha terceira vida na Europa. Foi quando fiquei sabendo que meu contrato se estenderia por mais 3 meses pelo menos, e me pediram para indicar alguém para me substituir. O Gabriel aceitou, e em um mês ele estaria na Suíça comigo.
O verão também veio cedo, e as minhas fotos no Flickr não me deixam mentir que foi uma época muito bem aproveitada. Era praticamente sagrado ir para a beira do lago beber vinho e tomar sol até quase dez horas da noite. Ah, o verão.
O Gabriel em Genebra marcou uma fase esquisita para mim. Foi quando fiquei sabendo que tinha sido aceita na Universidade de Tampere. Comecei a minha saga de viagens pela Europa, em festivais e acampamentos quase todo fim de semana. Era de se imaginar que seria o momento em que eu estaria mais presente em espírito no velho continente. Mas foi quando meus amigos da primavera começaram a ir embora, e ele, meu melhor amigo de Brasília, era uma força me puxando de volta para casa. Meu tempo na Suíça estava se esgotando. Foi bom, mas foi ruim. Foi ruim mas foi bom. Muito mais bom do que ruim, se é que vocês me entendem.
Era um estar lá sem estar de verdade, viajar para conhecer muitos lugares muito rapidamente, nada mais do que uma passagem, apenas esperando chegar a hora de assentar de vez na Finlândia - até que a próxima lufada de vento me levasse para o destino seguinte.
A volta para o Brasil caiu sobre mim como a água de uma cachoeira gelada, que lava o corpo e a alma e você não sabe o que saiu mais limpo. Desde o momento que vi minha mãe no aeroporto, foi como se os nove meses anteriores não tivessem sido mais do que um sonho. Tudo igual e no lugar onde eu deixei - exceto minha irmã, que estava com uns dez centímetros a mais. Foram só quinze dias, mas os vivi tanto que eles ganharam status de quarta vida dentro do meu ano.
E finalmente esses primeiros meses na Finlândia. Desnecessário dizer que também se passaram intensamente. Estou onde deveria estar, por todos os motivos que eu já conhecia e alguns outros que estou descobrindo por aqui. Você nunca pode imaginar o tanto que vai aprender quando larga o que já conhecia e parte para ver o mundo lá pelo outro lado. E olha que eu estou só na metade do caminho para o outro lado.
Eu envelheci - ou amadureci, certamente é uma expressão mais adequada - bem uns três anos, ou mais, nessa última volta que a Terra deu. Dentre os inúmeros aprendizados, acho que o maior foi perceber, ou no mínimo dar mais atenção, ao fato de que a vida é realmente cíclica. Todos aqueles sentimentos do começo estão voltando, de uma maneira ou de outra. Será por causa dessa chuva? Não estou mais sozinha como no ano passado, mas as músicas daquela época me trazem de volta o desconhecimento. É outono de novo, estou aqui há um ano, vou me fechar em meu corpo e minha cabeça para renascer na primavera.

Comentários
Ma, indescritível o quanto é bom ler você novamente e ainda mais assim, sabendo que vai tudo bem, apesar de um ou outro percalço e dificuldade. É uma pena que na tua vinda para o Brasil não tenha dado para eu ir pra Brasília... saudade, my dearest!
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Mááá!!! Que lindo está o seu blog! Eu andei relapsa e não entrava há um tempinho. Quantas saudaaaades!!!!!!! Incrível... quando leio o que vc escreve aqui, tenho a sensação de estar escutando vc dizer.