A boa filha à casa torna

Ponte JK

Um dia eu acordei de manhã bem cedo, peguei um avião às seis, outro às dez, e às cinco da tarde eu estava lá na terra das palmeiras, ouvindo canto de sabiá. Que maravilha que é o vôo direto da TAP, sai de manhã e chega de tardinha, dá até para sair e comer pizza!

É uma pena que o aeroporto de Brasília não comporta vôos internacionais muito bem. Ou pelo menos foi o que pareceu, depois de uma espera de umas duas horas para passar pela imigração e pegar as malas. Imagina, a fila para brasileiros estava maior e muito mais lenta do que para estrangeiro. Ninguém entendia o porquê, normalmente ninguém tem problema para voltar para o próprio país, né? Mas é que tinha uma história de ir fazendo o cadastro de todo mundo que ainda tinha o passaporte verde. O rapaz que veio comigo no vôo tinha dupla nacionalidade, e sem titubear entrou no país com o passaporte português porque era mais rápido. "Bem-vinda de volta à casa", pensei. Definitivamente eu estava no país certo.

Fui uma das últimas a passar pela alfândega, porque uma de minhas malas não veio e eu fiquei esperando até o fim para reclamar com a TAP. Logo a que tinha chocolate suíço dentro. Até prometi ao moço das malas que daria uma barra inteirinha a ele se a mala voltasse a mim sã e salva. O cara da alfândega me olhou meio desconfiado quando falei que o notebook era meu mesmo, posso te mostrar, mas me deixou passar. E do outro lado do portão estava minha mãe, meu pai e a Milla, enorme, praticamente da minha altura! Comecei a chorar. Essa menina cresceu e eu não vi! Não estava nem de salto alto e já estava do meu tamanho. Veio aquele aperto, a vida aqui está acontecendo e eu não estava aqui para vivê-la.

Passado esse pequeno choque, de repente tudo voltou a ser incrivelmente e maravilhosamente familiar. Como se a Suíça nunca tivesse existido na minha vida. Agosto em Brasília, ar seco, névoa seca, o carro, a casa, os cachorros, a escada, meu quarto. Tudo lá, tudo como eu tinha deixado, ou quase. Agradeci silenciosamente o fato de minha mãe ter arrumado tudo do jeitinho que era antes. Nem parecia que durante a minha ausência aquele mesmo quarto tinha sido escritório e quarto de hóspedes.

Mas quando eu comecei a sair para resolver todas as pequenas pendências que me esperavam, a coisa que mais me chamou a atenção foi a língua. Incrível poder sair e escutar as pessoas, e entendê-las! Perguntar por informação sem ter que pensar umas três vezes antes se o verbo é o certo, ou se a pronúncia é assim mesmo. E conseguir entender a conversa de todo mundo no celular me parecia espionagem.

Durante aquelas duas semanas fui às mesmas festas que eu ia antes, comi a mesma comida, encontrei as mesmas pessoas. E conheci pessoas novas. Como é mais fácil fazer amigos no Brasil. E as pessoas são, sim, muito mais alegres, falantes e barulhentas. Era muito do que eu estava precisando, um pouco mais de samba e suor no meu dia-a-dia.

Durante aquelas duas semanas eu também vi toda a família. Comemoramos minha chegada e fizemos a minha despedida quase que ao mesmo tempo. Vi e abracei todos eles, e agradeço muito que tive a oportunidade de ver bastante meu avô, que um mês depois morreu inesperadamente.

E as semanas passaram rápido demais. Me enfiei em arrumações e limpezas nos velhos papéis e documentos, para deixar tudo em ordem para minha mãe em casa. Porque a viagem seguinte seria mais longa e teria um propósito bem definido. Tentei, da maneira que pude, me preparar para os dois anos seguintes num país tão diferente que eu não conseguia nem conceber como ele se seria.

O dia de ir embora chegou rápido demais. Mas ao mesmo tempo eu ansiava por ele. Era finalmente a realização de um sonho antigo. E entrei no avião, desta vez sem medo de ele cair. Em São Paulo, um amigo querido me acompanhou por algumas horas. E de noite, não sem um pequeno atraso, embarquei rumo a Helsinki.

Foram duas semanas perfeitas. Mas se eu pudesse voltar no tempo, acho que eu teria tomado um pouquinho mais de sol.

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Comentários

Felipe Balduino (não verificado(a)) ter, 19/02/2008 - 22:13

estou adorando ler o seu blog!

uma pretensão minha é viver fora do Brasil [Suiça é uma enorme candidata], e ler experiências alheias ajudam muito a ter uma certa noção do que de fato é encarar uma aventura como essas, longe de pessoas que sempre estiveram ao seu lado. [ainda sou universitário, então ainda tenho um certo tempo pra pensar nessa loucura toda..]

vou daqui, lendo tantos posts quanto conseguir, te desejar uma ótima estada aí fora e que proveitosos sejam os teus estudos