Minha experiência com trens na Europa

Continuando o post anterior, coloco aqui no blog um texto (texto não, um tratado =P) que escrevi no fórum da comunidade do Movimento dos Sem Trem (http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=41547015), sobre minhas experiências com transporte ferroviário nesse pouco mais de um ano vivendo na Europa.

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Morei por 9 meses na Suíça, depois me mudei para a Finlândia e cá estou há 7 meses. Nesse ano e pouco morando no Velho Mundo, minha experiência pelas ferrovias é até bem grande. Vou escrever tudo aqui também para me lembrar.

Na Suíça, viajei para cidades perto e para o outro lado do país (tudo bem que o outro lado do país fica só a 300km, mas...). A SBB/CFF/FSS (http://www.sbb.ch/en/index.htm) tem um cartão de meia tarifa que o viajante compra por um valor um pouquinho salgado, mas que se paga após pouquíssimas viagens. Com ele, paga-se meia passagem na maioria das rotas. Pode-se comprar por um, dois ou três anos. Custa muito menos para jovens de até 16 anos. Para pessoas de até 25 anos, pode-se adicionar ao cartão de meia tarifa o "Track 7", que permite viagens gratuitas a partir das 7pm até o final dos serviços (que vai normalmente até pouco depois da meia-noite). Como naquela época eu me encaixa nesse grupo, comprei o tal do cartão e aproveitava quase todo fim de semana para subir no primeiro trem depois das 7 em direção a uma nova cidade a ser explorada. Pegando o trem na sexta à noite e voltando no domingo à noite, viajei de Genebra a Zurique e a Lucerne sem pagar absolutamente nada.

Além de viagens turísticas desse tipo, também pude aproveitar do benefício de um transporte rápido e razoavelmente (ou comparativamente) barato entre cidades em duas outras situações. A primeira foi fazer um curso de francês em Lausanne, cidade a 60km ao norte de Genebra. Por duas semanas, eu subia no trem todo dia de manhã, assistia às aulas até pouco depois de meio dia, subia no trem de volta a Genebra e voltava para o trabalho antes das duas da tarde. Um passe mensal comprado também com o preço reduzido pela metade viabilizou a peripércia.

A segunda foi quando, em julho, resolvi ir ao Festival de Jazz de Montreux. Pouco importa o fato de que Montreux fica a mais de 100km de Genebra - fui até lá três vezes, duas com ingresso para os shows pagos na mão e outra apenas para ver o movimento. Fica fácil quando simplesmente não se paga passagem.

Uma viagem de pouco menos de uma hora separa Genebra de Montreux, mas o tempo passa num piscar de olhos com a companhia dos amigos, uma garrafa de bom (e barato) vinho e a paisagem impressionante dos Alpes no outro lado do Lago Leman. A SBB/CFF/FFS oferece passagens de trem combinadas com ingressos para eventos desse tipo (e outros, como idas a museus, shows e festivais de rock), e quando necessário, estende o serviço até mais tarde e com mais paradas para atender a todos que vão aos eventos.

Uma das coisas que eu mais gostava nos trens suíços é que a passagem era válida pelo dia inteiro e permitia que o viajante descesse do trem em qualquer estação e subisse no próximo com o mesmo ticket. Ou seja, comprando uma passagem de Genebra a Montreux, eu podia fazer uma parada em Lausanne e visitar duas cidades pelo preço de uma.

Além das viagens dentro da Suíça, subi no trem também na Itália, para fazer o percurso turístico na área protegida pela Unesco chamada Cinque Terre. Na mesma viagem, peguei um trem para Pisa, onde passei a Páscoa de 2007 no gramado da praça dos Milagres olhando para a torre torta.

Com passagens (de avião) compradas para um festival de rock na Holanda, recebi um email da EasyJet anunciando que meu vôo havia sido cancelado. Nenhum dos horários alternativos me servia, etnão resolvi ir de trem. O valor foi ligeiramente superior ao valor da passagem de avião, mas pelo menos tive a opção alternativa. Também ajudou o fato de que não paguei o trecho entre Genebra e Basel, de onde saía o trem noturno operado pela empresa alemã Deutsche Bahn.

O trem alemão era mais confortável do que os trens que eu usei na Suíça, mas estava tão lotado de gente, e parava em tantas estações, que na verdade não dormi quase nada. Esse trem parou em Frankfurt (onde fica um dos maiores aeroportos da Europa), e lá muitas pessoas desembarcaram, fazendo a viagem ficar bem mais confortável. Ainda assim, uma troca de trens, não prevista, às 4 da manhã, não ajudou muito na sonhada noite de sono antes do festival.

O fator surpresa dessa viagem ficou por conta de um acidente nada agradável. O trem parou em uma cidade e o condutor do trem (nem sei se é esse o nome) anunciou em alemão alguma coisa. As pessoas pareciam um pouco irritadas, e sonolentas, pois não eram nem 7 da manhã ainda. Uma alemã me explicou: o trem ia voltar para a cidade anterior, e atrasaria pouco mais de uma hora para chegar em Cologne. Isso porque um homem se jogou na frente do trem (!), e o caminho estava interditado. O trem não podia ficar parado ali, então simplesmente voltou...

A última grande viagem de trem que fiz antes de me mudar para a Finlândia foi de Genebra a Paris com o TGV. A duração da viagem é de 3 horas, mais ou menos o tempo que levaria para ir de avião, e com um preço mais ou menos igual também. Mas a conveniência de sair do centro de uma cidade e chegar praticamente no centro da cidade destino, sem se preocupar com líquidos e canivetes na bagagem (ora, claro que eu tenho um e ando com ele, meu fiel canivete suíço), controles de fronteira e, no meu caso, o medo (controlável, mas ainda assim desagradável) de viajar de avião, fizeram a opção pelo trem ser óbvia.

Aqui na Finlândia, os trens são confortáveis também, as passagens podem ser compradas pela internet, e você pode até pedir o assento com tomada para ligar seu laptop. Com rede de celular 3G praticamente no país inteiro dando acesso rápido à internet pelo notebook, é comum ver gente que mora, por exemplo, em Tampere (onde estudo), mas trabalha em Helsinki, e faz o trajeto de ida e volta até quatro vezes por semana. O trajeto é confortável, rápido, e permite que a pessoa trabalhe em paz, ou simplesmente durma um pouquinho mais até chegar no escritório.

Minha única reclamação, comparando com o sistema de trens na Suíça, é que os bilhetes só valem para a hora comprada. Então, se você perder o trem, perde o dinheiro. Mas, em compensação, estudantes pagam meia, sem precisar comprar nenhum cartão extra.

O que eu vejo que é muito diferente aqui na Europa é que as pessoas têm uma visão muito diferente do conceito de mobilidade. É tão fácil subir em um trem e encontrar um amigo do outro lado do país, ou planejar uma viagem, ou ir a um concerto ou exposição de arte. Não exige muito esforço ou planejamento. Não exige revisão de carro, nem guia quatro rodas, nada. Por essa e outras (eu sou, como alguns amigos me definem, uma abraça-árvore) que eu amo os trens =D

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