Ode à bicicleta

O lago ainda estava congelado quando eu fui com o Matias buscar a bicicleta. Vinte míseros euros, quem diria. O suficiente para uma magrelinha de pneus furados, meio sujinha, mas que ainda dá para levar um feliz proprietário pra cima e pra baixo. Ela é branca com roxo, parece a bicicleta da Barbie (juro!).

O grande problema não estava na falta de dinheiro para comprar uma, nem na primavera que aqui é bonita mas ainda faz frio. O problema era que eu não sabia andar de bicicleta!

Bom, não saber talvez fosse exagero. Ainda me lembro direitinho de quando eu herdei a Cecizinha da minha irmã mais velha. Não lembro qual era a cor dela originalmente (talvez amarela?), mas lembro que tinha uma bicicletaria autorizada da Caloi bem pertinho da minha casa, e para a bicicleta velha parecer nova, ganhou uma pintura azul-céu, escolhida a dedo, e apliques de estrelinha no quadro.

A bicicleta era grandinha, ou eu que sempre fui pequena. Eu me lembro que me sentia intimidada. Mas me lembro também de quando, no estacionamento da delegacia que ficava do lado do meu prédio, meu pai foi segurando atrás e eu pedalei, ele me soltou e eu percebi, "vai, vai!", e eu estava andando.

Não me lembro de ter caído nenhuma vez. Ou não caí mesmo, ou apaguei da memória qualquer tombo. O negócio é que, sem nunca ter caído, eu desenvolvi um medo esquisito de me machucar. Esse medo, aliado à falta de prática, fizeram com que, mais de dez anos depois, eu viesse a me considerar uma adulta-que-não-anda-de-bicicleta. Ah, essa classe marginalizada da sociedade.

Sim, porque eu tentei andar em Amsterdam, com o tio Paulinho, e não consegui me equilibrar. Dali pra frente, pus na minha cabeca que eu não sabia andar. E que isso era uma vergonha. E que eu ia aprender a andar, resolucao de ano novo de 2007. Mas veio 2008 e eu ainda olhava com inveja e um certo ressentimento para as sei lá quantas mil pessoas que vão e vêm, falando no celular, andando sem as mãos, ajeitando o cabelo, e tudo mais. E eu não sabia me equilibrar. Na verdade, desde o episódio na Holanda, eu nem tinha tentado de novo...

Daí um belo dia chuvoso de um início de primavera na Finlândia, eu decidi que ia tentar de novo. A bicicleta da Jana estava estacionada no antigo apartamento da gente, e precisava ser carregada por uns 400 metros até a nova casa. Ninguém olhando, rua vazia, sem carros. O caminho até o novo prédio era no meio de um parque amplo. Pensei, é agora. Subi na bicicleta e... andei. Andei! Me equilibrei, de primeira, como se nunca tivesse parado de andar na vida. É verdade o que dizem, quem aprende não esquece. Ainda faltava prática, me acostumar a fazer curvas. Ainda não sei pedalar de pé, e o banco está meio baixo para poder apoiar o dedão no chão. Mas a minha bicicleta da Barbie me carrega todo dia pelos 2,1km que separam minha casa e a universidade. Quando não me sinto segura, eu e ela trocamos de lugar, e a empurro por quanto eu achar necessário. Na maior parte do caminho, pedalo devagar, mas pedalo. Tirando uma velhinha que riu de mim quando eu estava tentando dar o arranque com a bicicleta (não sei o que ela falou, mas queria saber finlandês para responder à altura), nenhum evento especial, nenhum tombo, nenhum susto.

...

Eu contei a história toda daí de cima porque andar de bicicleta pra mim, além de uma vitória sobre um de meus muitos medos bobos, significa um passo a mais em direcão a um estilo de vida que escolhi há algum tempo. Como já venho escrevendo nas entrelinhas deste blog, quero voltar para o Brasil para tentar fazer alguma diferenca na qualidade de vida por lá. E acredito que o transporte público é uma área que precisa melhorar muito... e que está ao meu alcance para fazer alguma coisa.

Como eu poderia tentar mudar alguma coisa sem poder ser parte da mudanca?

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Comentários

Aime (não verificado(a)) dom, 01/06/2008 - 01:58

Boa essa!
boa a historia! Boa a licao!
a devisao de cumprir uma meta, e a melhor poder/saber confessar os medos, e ainda mais de ENFRENTA-LOS!
Se deixarmos vamos ficando cada vez mais medrosos e acomodados com o passar do tempo. E esse eh o grande erro e causa de muitas coisas estarem como estao, nao acha?
E se tem uma coisa que tambem decidi(e A FINLANDIA, esta me ensinando) eh nao ter medo/vergonha de ser e fazer o que quer que seja!
E uma delas foi tambem de comprar e aderir a uma bicicleta! (atualmente muito mais pratico do que casar)
E nao eh que a vida fica mais interessantes em 2 rodas?
Boas pedaladas nesse verao!
E sorte na sua empreitada!
Tambem sou a favor de mudancas e ainda mais de fazer diferenca no nosso Brasil!

Aime (não verificado(a)) dom, 01/06/2008 - 01:59

Boa essa!
boa a historia! Boa a licao!
a decisao de cumprir uma meta, e a melhor poder/saber confessar os medos, e ainda mais de ENFRENTA-LOS!
Se deixarmos vamos ficando cada vez mais medrosos e acomodados com o passar do tempo. E esse eh o grande erro e causa de muitas coisas estarem como estao, nao acha?
E se tem uma coisa que tambem decidi(e A FINLANDIA, esta me ensinando) eh nao ter medo/vergonha de ser e fazer o que quer que seja!
E uma delas foi tambem de comprar e aderir a uma bicicleta! (atualmente muito mais pratico do que casar, rsrs)
E nao eh que a vida fica mais interessantes em 2 rodas?
Boas pedaladas nesse verao!
E sorte na sua empreitada!
Tambem sou a favor de mudancas e ainda mais de fazer diferenca no nosso Brasil!