Recebi hoje uma mensagem endereçada a todos os funcionários da OIT com um pedido vindo diretamente da UNAIDS, que é o orgão internacional da ONU voltado para a luta contra HIV/Aids. Era uma solicitação de preenchimento de um questionário anônimo sobre a AIDS - o quanto eu sei sobre ela, como é o tratamento de pessoas com HIV no trabalho, se eu considero que um portador de HIV seria discriminado aqui, e etc.
Eu, que gosto pouco de responder pesquisas e questionários, rapidamente cliquei no link e comecei a escolher as bolinhas. As perguntas não tinham nada de especial, mas me soaram um tanto quanto... conhecidas, talvez. Um belo de um déjà-vu. Palestras informativas sobre AIDS no local de trabalho eu nunca tive, mas convivo com folhetos e panfletos sobre como não se pega HIV e sobre como usar camisinha há tanto tempo que me considero quase uma expert. Já me testei para saber se tenho HIV umas duas vezes e não tenho o menor problema em testar uma terceira. E nem precisa ser teste anônimo. Nada de tabus por aqui.
Boa parte desse desembaraço vem, claro, da educação na minha família. Sou uma felizarda por ter um segundo pai ginecologista, que soube me dar uma educação primorosa. Mas vem também dos programas brasileiros de prevenção contra a AIDS, que estão entre os melhores do mundo.
O site do governo voltado para a prevenção e tratamento AIDS no Brasil, http://www.aids.gov.br, é muito bom. Inclui não só informações úteis e notícias atualizadas, como também possui fóruns de discussão, super movimentados, para que as pessoas troquem experiências e se apóiem nos momentos difíceis. Eu sei disso não apenas como curiosa - o site da Aids foi um dos sites que estudei enquanto fazia a pesquisa para meu projeto final do MBA.
O questionário me fez ficar curiosa em relação às políticas suíças para prevenção e combate ao HIV. Fui atrás de algum lugar para teste gratuito. E, surpresa, não existe. Um teste custa 50 francos suíços. Em compensação, é entregue em meia hora. Pode ser anônimo, mas nesse caso, nada de ganhar reembolso pelo plano de saúde. Para menores de 18 anos, a taxa é de 20 francos.
Bom, no Brasil, uma maneira de conseguir o teste de Aids é doando sangue. Você faz uma boa ação e ganha em troca testes que custam caro: Aids, Sífilis, Doença de Chagas e Hepatite. Eu acho uma troca mais do que justa. Os testes vão ser feitos no seu sangue mesmo, o que que custa eles enviarem o resultado para você? E para os que acham que doar sangue só para conseguir o exame é um ato de uma pessoa irresponsável, que estaria colocando em risco o receptor: na hora que você vai entrar na salinha de doar, eles te dão um papelzinho, chamado célula de auto-exclusão, que tem um número e uma pergunta: "Seu sangue é adequado para ser utilizado para transfusões de sangue?". Se você marcar que não, você vai entrar na sala normalmente, seu sangue será recolhido, os resultados enviados a você, mas a bolsa com seu sangue será destruída em seguida. Tudo bem que é um desperdício, e tirar sei lá quanto de sangue para jogar fora pode parecer estupidez à primeira vista. Mas é só lembrar que o valor dos exames é de um terço do salário mínimo. Eu acho que é uma boa maneira de "ficar sabendo" (para utilizar o slogan das campanhas) sem desembolsar uma grana preta. Não é o melhor meio, mas ainda assim, admiro o fato de os hemocentros lidarem com essa realidade de uma maneira tão respeitosa.
Pois bem, eu não consegui doar sangue pela segunda vez antes de sair do Brasil por questões de tempo e por ter tomado antibióticos, que impedem a doação por uns 3 meses. Então achei que estava aí uma boa idéia: doar sangue na Suíça e ganhar os exames que custam 50Fr em troca. Que nada! Nada de exames gratuitos para os bom samaritanos suíços. O governo tem campanhas para estimular a doação, mas não achei nenhuma que chegasse nem aos pés das nossas (né, tio Lu? =D). Os horários de coleta são terríveis, bem no meio do expediente. Centros coletores não funcionam aos sábados. Não tem nada que me diga que eu posso tirar o dia de folga depois de doar, o que eu acho super importante, já que da vez que doei, fiquei imprestável pelo resto do dia, fraquinha, fraquinha.
Podem dizer que aqui todo mundo é rico e dinheiro não falta para pagar pelo teste de AIDS. Podem dizer também que a educação é ótima e as pessoas são conscientes o suficiente para saberem que doar sangue é um ato importante, e por isso os hospitais não precisam facilitar tanto o processo para quem resolve ajudar. Eu discordo. Não sei quais são as estatísticas de quem se testa contra o HIV voluntariamente e de quem doa sangue no Brasil e nem na Suíça. Mas sei que teste de graça e campanhas de doação permanentes aumentariam esses números em qualquer lugar do mundo, e são números que todo mundo quer ver crescendo, no primeiro ou no terceiro mundo.

Comentários
Não só pelo tema como pela tua abordagem, aberta, clara e corajosa! Muito bom hein guria? =) Não é a toa que vc é minha musa, rs :D
Agora, referente ao post "homesick"... não tem jeito, tem certas coisas que deixam melancólico mesmo, a distância da família tem suas coisas boas - crescimento, amadurecimento, conquista da independência, etc. - mas não dá pra fugir do lado negativo, de vez em quando, não.
Que o momento passe logo e felicidades pra tua irmã na nova fase da vida dela!
:***
(ps: tou aguardando fotos da neve lá no flickr!)
Mairosa,
Gostei muito do post! Por tudo que o Tevisan falou.
me fez lembrar que vc estudou jornalismo um dia, hehehe.
Bjos grandes e saudosos
gostei de seu post, e do que me alertou, confesso que não sou tão ligado a esses assuntos , mas que são um problema a ser encarado de frente e com prevenção acima de tudo.
diego
Não precisa fazer exame para entrar aqui, eu fiz porque doei sangue e ganhei o exame de graça.
=)