O ranking da qualidade de vida

Tenho recebido em meus feeds (blogs e sites de notícias nos quais me increvo para receber as atualizações por meio de um programa) diversas notícias sobre o ranking de cidades com melhor (e pior) qualidade de vida para se viver no mundo. Não é nenhuma surpresa saber que a Suíça está no topo. Zurique, com 108.1 pontos, é a primeira do ranking, e Genebra vem logo atrás, com apenas um décimo de ponto a menos.

O ranking, elaborado pela Mercer, considera a qualidade de vida de Nova York como o valor 100. Flutuando ao redor desse valor, as outras 214 cidades são classificadas de acordo com critérios como crime, aplicação da lei, ambiente econômico, ambiente sócio-cultural, saneamento e educação, dentre outros.

É interessante observar que, ainda que haja apenas 8 pontos de diferença entre as duas cidades suíças que se saíram melhor no ranking e NY, a Grande Maça foi considerada a 48a colocada.

No Brasil, Brasília é a cidade com maior pontuação (78.8), que a garantiu o 104º lugar. São Paulo, com 74.6 pontos, aparece em 114°, seguida pelo Rio, com 74.5, em 116°.

Há qualidades de vida e qualidades de vida...

O próprio relatório da Mercer reconhece, por meio de um interessante box no final do press-release que divulga os resultados: os critérios para gerar os índices são critérios objetivos, que indicam se a cidade é uma cidade estável ou não, onde seus filhos vão crescer sem que você precise se preocupar. Mas o índice deixa de fora o critério dinâmico, um je ne sais quoi (traduzido literalmente como "um não sei quê"), que é o que dá toda a graça. Mas às vezes esse "tempero" pode ser justamente o que faz a cidade cair alguns pontinhos no ranking.

Como é morar na segunda melhor cidade do mundo?

Sinceramente, não tem nada de especial. Quer dizer, tem... mas o especial é justamente não ter nada de especial. Aqui, a vida funciona. E eu digo isso levando em conta os serviços que eu realmente uso, que são basicamente o correio e o transporte público. (Graças a Deus não precisei usar nada de serviço médico, apesar de saber que eu ia ser muito bem cuidada.) É bem o tipo de coisa que você só percebe que faz falta quando você não tem.

O que eu quero dizer é que não tenho o sentimento de morar na segunda melhor cidade do mundo para se viver.

Pode ser até uma boa lição ao estilo do Budismo. Uma prova de que o ser humano nunca está satisfeito com o que tem. Mas pode ser também um fator de desânimo para mim. Se o que eu tenho aqui é um dos melhores lugares que existe, então realmente o mundo anda muito mal das pernas.

Porque a verdade é que em Genebra também existe gente que te faz esperar na fila. Também existe construção no meio da rua que não acaba nunca. Também tem engarrafamento às sete da noite. Os ônibus também atrasam, às vezes chegam antes do que deveriam (o que é tão ruim quanto atrasar), e, o pior de tudo, não circulam depois de meia-noite. Também tem garrafas e plásticos jogados de propósito no parque por moleques, ainda que a lata de lixo esteja a menos de dez metros.

Tudo aqui é muito muito caro. Tentei trocar a lente dos meus óculos e, surpresa, 180 Francos pelo par de lentes mais barato da loja. Só a lente, eu ia manter a minha armação. Ao cinema eu não vou nunca, pois com os 17 francos do ingresso eu compro comida para a metade da semana. Restaurantes interessantes são um luxo que eu me dou bem de vez em quando, nos mais baratinhos onde eu consigo comer razoavelmente bem por algo em torno de 30 francos (mais ou menos uns 54 reais).

A cidade é segura, dizem. Mas não está livre de vandalismo e de pessoas loucas. Vi um cara sendo espancado por outros quatro no prédio ao lado do meu, um dia depois que meu amigo de trabalho também levou uns bons sopapos que os deixaram de molho no hospital por um dia inteiro. Na semana seguinte, as pessoas conversavam nos corredores dizendo que Genebra não é segura, que essas coisas acontecem toda semana mas ninguém divulga nada nos jornais.

Sendo justa, tenho que dizer que claro que não se compara ao Brasil. Mas morar em Genebra não me deixa tranquila para andar pelas áreas consideradas barra-pesada da cidade, e muito menos de dar conversa para qualquer um na rua.

A desigualdade social existe aqui também, em menor escala, mas existe. Dentre os que não sofrem o problema da exclusão social, têm os que acham que a vida anda muito sem-graça e resolvem beber demais e espancar alguém por diversão.

Filhinho de papai existe em qualquer lugar. Desigualdade também. Gente louca, mais ainda (aliás, acho que aqui na Suíça tem muito mais louco do que no Brasil inteiro). A diferença fundamental, na minha humilde opinião baseada tão somente no achismo, são os superlativos do Brasil. É um país enorme, com diferenças enormes. Muito mais difícil de lidar, mas sem diferenças fundamentais que inviabilizem a mudança.

E para fechar, uma pequena consideração: qualidade de vida depende da quantidade de dinheiro que você tem disponível. E nesse sentido, minha qualidade de vida em Brasília pode ser considerada melhor do que minha qualidade de vida em Genebra, já que lá eu tenho condições de ir ao cinema uma vez por semana, e não uma vez por ano =P

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Comentários

fstrevisan dom, 08/04/2007 - 03:37

Ma, você tem toda razão, qualidade de vida é muito subjetivo. Estando em SP eu fui a uns três eventos de tecnologia, conheci o escritório do Google e o Orkut (o cara mesmo), leio uns 7 livros em média por mês, vou a exposições, etc... mas nada supera o meu apê, as minhas coisas, o ar, o clima e as pessoas que tenho aqui em Balneário Camboriú. Ptz, como é difícil, né?

Aliás, devo conhecer BSB antes de você voltar, tou tentando me programar pra ir pra lá ainda agora em abril... =)

:******

Fernando S. Trevisan
http://fernandotrevisan.com.br/

Aninha (não verificado(a)) qua, 19/09/2007 - 02:24

Olaaaa...

estava passando a procura de qualidade de vida em outras cidades e o que elas possuem pra ser consideradas com a melhor qualidade de vida...e acabei parando aqui.
è que eu estou fazendo um trabalho na minha escola que vai abordar os oito jeitos de mudar o mundo, e depois que li o seu texto me surpriendi completamente.

quando nós nunca fomos viajar para lugares, paises diferentes, sempre pensamos que é tudo uma maravilha, e que o nosso pais é simplismente uma bosta (me disculpe o termo)...mais se vc for ver...eh tudo igual...e para ser sincera pode até ser mesmo piorr..

Como vc mesmo disse...um unico igresso para ir ao cinema aqui é uns seis reias e talz...e lah quaze é refeiçao da semana....cara...isso eh assustador...

Soh assim que agente pode perceber que o homem esta cada dia se importando mais cum o dinheiroo do que a propria existencia....mais o que eu queria saber é se tambem existe tantos mendigos lá como existe aki...e tambem como que é o pensamento do homem referente a essas questoes.

agradeço desde jah ...
e dou - lhe o parabens pela matéria marvilhosa que vc publicou.

beijosss

aninha*

Rodrigo (não verificado(a)) sex, 21/09/2007 - 21:07

Estava pesquisando sobre as cidades com melhor qualidade de vida, principalmente as canadenses, pois estou pensando em imigrar pra lá. E cheguei a conclusão que qualidade de vida é muito relativo. As cidades canadenses podem até ser bem mais seguras, mas também tem seus problemas. O clima é péssimo e o povo não é caloroso como os brasileiros.

aninha.pucca
imagem de aninha.pucca
sab, 22/09/2007 - 02:54

Oiee Mara...

adorei ter recebido suas respostas...e se não estiver abusando eu sei que você poderá me ajudar bastante nesse meu trabalho....e quei daber se você aceita ser minha "ajudante"...assim poderei mostrar a realidade de alguém que presenciou que nem tudo é diferente como as pessoas falam...e olha que o seu texto sobre a Genebra já vai ser trabalhado na feira cultural da minha escola..os professores adoraram...^^

Então...e eu queria te fazer mais algumas perguntinhas..se não incomodar:

primeiramente queria te perguntarcomo os idosos são tratados nesses países, se é igul aqui no Brasil que as pessoas os colocam em asilos outras coisas assim
Sengundo: como os jovens vivem nesses países, se possuem muito preconceito, de cor e ateh mesmo de nacionalidade. E se eles ajudam também em lutar por um mundo melhor.
A última pergunta agora é como é tratadas as mulheres...se possue muita desigualdade entre sexos, e além disso as doenças como Aids e Málaria...se essas doenças são muito comuns nesses lugares.

espero contar com a sua ajuda nas perguntas que estou precisando ao longo do tempo..e agradeço desde já sua atençao para comigo..=]

muitos beijoss
Assinado: aninha

Alexandre (não verificado(a)) ter, 18/11/2008 - 17:16

Gostei do Blog e falando de viver bem, deveria ser citada a cidade de Berna na Suíça. Estamos fazendo várias matérias deste tipo tambem no nosso Blog Coisas da Suíça informar a todos os falantes da língua Portuguesa sobre os acontecimentos e belezas da Suíça. Temas atuais e bem humorados do cotidiano Suíço, curiosidades sobre este país e muito mais.
Confiram!
http://coisasdasuica.swissinfo.ch
Alexandre Maestrini
Colaborador Swissinfo